Nem tudo é o que parece, passei tantas vezes por ti e nunca reparaste em mim.
Sinto algo diferente, não é uma simples atracção é uma obsessão doentia, um desejo por alguém que nunca senti e não acho isto normal, mas agora que o sinto, entendo que hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
Também já tive a minha dose dessa coisa a que erroneamente chamam de amor, ou porque foi um arranjinho e não queria perder tempo à procura de outra pessoa ou porque morávamos perto e era mais cómodo, no final nunca acabava bem, eu sabia que faltava mais qualquer coisa, só não sabia que era este sofrimento todo, esta timidez irrisória que nunca me atacou de tal forma, este medo de ser rejeitado, este medo que pode ser chamado de infundado pois nem nos conhecemos.
E agora entendo, parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. O amor não é para ser uma ajudinha à nossa vida, um ombro onde podemos chorar ou nos apoiar quando necessitamos, o amor é para sofrer, para esconder e não o tirar cá para fora. O amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo de apanhar um bocadinho de inferno aberto, o amor é o verdadeiro inferno que nos arde por dentro e nos consume até ao ultimo folgo, não acho que o amor é um estado de quem sente, mas sim algo que nunca deveria ser acordado das nossas profundezas mais obscuras. Talvez por isso isso existam as musas, sim, tu podes ser chamada de musa pois não passarás disso certamente, alguém de onde tiro todas as minhas criações e que nunca irá ser tocada.
Olho para ti quando tenho essa sorte e penso, que o amor puro não é um meio, não é um fim, não é um principio, não é um destino, mas simplesmente o é; é um todo que quando acordado nos hipnotiza em cada hora da nossa vida, já ouvi dizer que a vida às vezes mata o amor, para mim é o contrário, o amor é que nos mata a vida, não temos força para nada ou temos força para tudo; na minha opinião é que independentemente da situação isto se resume ao amor, ficamos moles, desensabidos, sem vontade de fazer nada a não ser morrer pelos cantos, morrer por não trocar uma simples palavra contigo, nem digo uma conversa ou uma frase completa, bastava um simples “olá” para me dar toda a força do mundo, para atravessar paredes, saltar sobre as estrelas e aterrar com um grande estrondo provocando uma cratera que se assemelharia à queda de um meteorito, e aí sim teria sentido a verdadeira felicidade, teria um sorriso estúpido que duraria semanas, isto só por um simples “olá”, nem precisava de o ouvir, bastava ler os teus lábios de onde aparecia a letra “ó”, a tua língua encaixava entre os dentes de cima com os de baixo criando assim o “éle” e acabava num sonoro “à” que não seria ouvido, enquanto os teus olhos azuis quem pareciam emanar uma vida completa olhavam rapidamente para os meus sem a menor ideia da revolução que me vai aqui dentro, e te afastavas sem conseguires ver a minha cara de atónito e que mal conseguia responder de volta, balbuciando qualquer coisa incompreensível. Mas não. Ainda não tive essa sorte, essa força, essa palavra; por isso, sinto que entre nós os dois o amor fechou a loja e não que saber da conclusão a que poderia chegar se algum dia eu tivesse a coragem de ir falar contigo.
Cada dia que passa sinto-me a afastar, a pensar que isto tudo não passaria de algo inimaginável aos teus olhos tão irreais, mas nos segundos em que te vejo diariamente tudo isso dissipa-se no ar; o ar que nos envolve, apesar de tão afastados sinto o teu ar à minha volta como que a dançar e a fazer pouco de mim por ser apenas essa a única forma de estar perto de ti.
Sim, consigo ver o teu sorriso de vez em quando, às vezes estou parado num banco e noto que estás prestes a entrar no café, e vejo-te a rondar a zona com o teu olhar assassino de um azul estridente que conseguia engolir exércitos, olhas de relance para mim e de vez em quando sai um sorriso. Só esse sorriso vale por mil palavras que aqui possam ser escritas, só esse sorriso acabaria com a fome e guerras do mundo.
Por vezes vejo-te a andar, não, a andar não, a deslizar, a planar. Vejo-te como nunca vi ninguém, observo todos os movimentos e gestos, as ondas da tua roupa que vão vibrando com o vento ou apenas por tu as estares a usar, vejo a tua mão a passar pelos cabelo, soltando-os mais um pouco como que a provar que consegues ser mais bela do que aparentas, apesar de isso ser impossível aos meus olhos secos de não pestanejar, para não perder um milésimo de segundo de ti.
Poderia morrer amanhã que morria feliz por te ter sentido, por teres tamanho impacto na minha vida apesar de nunca termos falado, morria feliz pois duvido que haja hipótese de algum dia me sentir tão feliz como me sinto quando te vejo. Estilhaçaste a minha alma ao apareceres pela primeira vez à minha frente, e desde aí que sinto-me completamente distante deste mundo; as nossas estradas cruzam-se mas nós mantemo-nos à distancia e odeio-te com todo o meu coração, mas acho que te amo...
Sei que nunca vais ler esta carta, e se a lesses provavelmente a acharias ridícula ou algo do género, muito lamechas talvez; mas soube bem escrever, soube bem pensar nas coisas e escrever sobre elas pois daqui a uns tempos quando já não tiver oportunidade de te ver, vou saber como me senti uma única vez na vida, a ser atacado por ti, e pelo amor que está presente algures.
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