“Hoje foi mais
um dia, um dia sem esperança um dia sem futuro, um futuro sem
esperança. Tudo começa e acaba na nossa maneira de viver, ou de
pensar que vivemos, somos iludidos pela falsa realidade que se
apodera de nós, acreditamos no que não é, e duvidamos da verdade,
consigo ver pela cara dos meus colegas o quanto a vida pesa, eles,
mais do que ninguém o sabem, e sabem do que são privados ao estarem
aqui comigo ou eu ao estar com eles. Por causa de um ou de outro,
prefiro ficar fechado no meu quarto e não sair para o mundo, prefiro
viver no meu pequeno mundo e chorar, chorar até me doerem os olhos,
penso em tudo o que me trouxe aqui e no que eu podia mudar, mas nada
disso me consola, pois por muitas recordações que tenha nenhuma me
vai fazer voltar ao passado e mudar tudo o que aconteceu; mudar o
destino, essa seria uma boa oportunidade de remediar, mas o que não
tem remédio, remediado está, e por isso não me adianta choramingar
o como poderia ter sido, mas sim o que vai ser. Por isso, hoje tomo
esta decisão, vou ter medo, vou ser tímido e ensimesmado mas, não
me vou arrepender, arrependo-me das más decisões, não das decisões
pelas quais não caminhei. Mas… mas continua, continua este
sentimento de vazio, esta vontade de… nada… uma vontade irrisória
de explodir e implodir ao mesmo tempo, uma vontade de espalhar todo e
qualquer átomo do meu ser pelo mundo, poder viver, ou melhor, poder
contemplar a vida, não ter decisões a tomar, não ter acções a
causar, no fundo, não existir!
Como pode ser
isto? Estou assim num patamar tão abaixo de cão que nem uma atitude
tomo? Porquê? Nem eu sei, quero saber mas não descubro! Vasculhei
toda a minha mente numa tal fúria e mesmo assim, nada, nem ponta por
onde se lhe pegue! Quero agir, quero parar de sofrer, quero ser
reconhecido e não enfrentado com dúvidas, não consigo aguentar tal
desconforto, não consigo viver comigo mesmo ao saber que nada vai
mudar! Acordo numa agonia que não suporto, penso sempre o que poderá
ser hoje, que mal poderá acontecer ou que bem não aconteceu, penso,
o que posso fazer, o que pode ser a decisão certa que vai mudar o
rumo da minha vida, talvez até decidir se vivo ou se morro.
Infelizmente esta
sensação é mais frequente do que eu queria, para dizer a verdade,
já não me lembro de não a sentir, mas sinto que morri, já não
tenho forças, não tenho forças para lutar, para viver, para
caminhar…
Tudo começa com
um sabor metálico na boca, depois sentimos a cabeça a ser
comprimida e a cair como se fosse empurrada por uma força superior;
deitamo-nos e pensamos: - “E agora? O que se está a passar? Porque
estou eu assim?” Começamos a pensar o que nos tornou assim, qual o
momento exacto, ou quais, e apercebemo-nos de que foi a vida, a vida
madrasta pela qual seguimos e fomos guiados, nós não somos
medíocres mas fomos esgotados pelas más influências ou vibrações
por assim dizer, a própria vida pediu-nos mais do que nós pudemos
dar, fomos pisados até ao último calo e mesmo assim continuamos a
viver, mas não a viver. Desanimamos, desanimamo-nos mesmo, ficamos
deprimidos, encontramos fantasmas e não sabemos como livrarmo-nos
deles…
Sinto-me
materialista, muito, talvez excessivamente, sempre soube que o fui,
mas mesmo agora estou a senti-lo e não o consigo refutar, apetece-me
apartar tudo o que tenho, seja como forma de caridade ou simplesmente
mais lixo para o mundo, só quero um colchão, folhas e uma caneta,
apetece-me não fazer nada, ou fazer, escrever, escrever sem parar,
escrever sempre as mesmas palavras e ficar num ciclo repetitivo,
infinito talvez, sempre a dizer o mesmo…
Vontade de nada…
vontade de tomar uma atitude com duas pedras de gelo, talvez um shot
de disposição, voltar a criar, voltar a querer viver; mas é
impossível! Ou talvez não, vou enfrentar a vida, fazer frente ao
maior espécime que me aparecer ai à porta; seja ele a própria
morte ou um colega a cravar um cigarro. É uma escolha de palavras
estranha mas amanhã vou viver, vou-me levantar e sair para o mundo.
Ou talvez não… quem sabe? Eu não sei de certeza mas por uma vez,
uma última vez, vou-me erguer e fazer-me conhecer, berrar aos quatro
cantos da terra quem eu sou! Impor-me e expor-me! Estou farto de tudo
e de todos, berrem comigo! Só por berrar! Libertar toda esta tensão
que nos amassa, que nos rodeia e que nos comprime e nos torna
pequenos! Acabei, não consigo escrever mais, tenho que apagar a luz
antes que a apaguem por mim. Continuarei amanhã, quem sabe.”
Este é um excerto
de um texto redigido pelo doente nº 960634-1337 e que deverá ser
entregue á respectiva família juntamente com todos os pertences do
mesmo e um pesar de toda a direcção desta instalação.
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