-Porquê?
-Porque sim…
-Mas eu não quero.
-E eu estou-me pouco lixando para o que tu queres.
-…Mas temos que ser os dois a decidir, sabes que sem isso nada
feito! Por isso diz-me boas razões, justas e verdadeiras.
-OK… primeiro porque ele precisa tanto como nós, segundo… -um
silêncio incómodo apodera-se do ar – Porque nenhum de nós irá
sobreviver…
-Deves achar que tens asas...sabes que não devíamos, que não
podemos.
-Que se lixem as regras, os mandamentos, ou a lei, se tivermos que
ajudar, ajudamos, se tivermos que matar… matamos! Tu, melhor do que
ninguém devias não só aceitar, como ter tido a própria ideia, não
sei a quem sais com esse medo irracional.
-Muito bem… Acorda-o
-Hei, tu!
Sinto um ardor nos olhos ao ouvir uma voz a entrar directamente na
minha cabeça, tento mexer-me, mas todas as extensões do meu corpo
berram de dor. Deitado de barriga para baixo com a cara colada ao
chão tento levantar-me sem pressa. Primeiro faço força com o braço
direito e levanto um ombro, depois com o esquerdo, e ergo a cabeça;
algo escorre pela minha cara, algo viscoso que me passa pelas
bochechas até ao canto dos lábios, instintivamente arrasto a minha
língua até esse canto e sinto um sabor meio doce, um sabor
conhecido… sangue misturado com suor, não me repugna, pelo
contrário. Até fico aliviado por sentir outra sensação que não a
dor. Ouço outra vez aquela voz.
-Hei, tu aí, força nisso.
É uma voz arranhada, quase rouca, não para de insistir para me
levantar. Olho em frente à medida que levanto a cabeça e vejo-os.
Dois homens todos nus que não devem ter mais de trinta anos, o da
esquerda preso com as mãos acima da cabeça todo esticado, quase sem
tocar com os pés no chão, o da direita, aninhado no chão com umas
ferramentas estranhas a prende-lo ao próprio solo obrigando-o a uma
posição desconfortável e com pouca liberdade de movimentos. Tinham
uma fisionomia parecida, mas o que estava pendurado tinha cabelo
comprido, de um castanho claro, olhos muito verde e várias
cicatrizes no corpo todo, algumas antigas e outras que não deveriam
ter mais de um mês, via-se no seu olhar confiança e vigor; o que
estava quase deitado no chão tinha um aspecto simples, cabelo curto
de um castanho acobreado, uns olhos penetrantes castanhos muito
claros, por vezes, com o reflexo até pareciam amarelos. Ambos tinham
na pele uma mistura de sangue com terra.
Olho à minha volta e vejo o que aparenta ser uma rudimentar
construção de uma cela, com pedras enormes à minha volta e até o
próprio chão é feito de pedra, em certas zonas tinha musgo que
parecia querer rastejar pela parede toda até nos tocar e engolir, a
humidade fazia os ossos gemerem de dores e fazia-se sentir pelo toque
do chão que mais parecia uma entidade viva ao acompanhar a minha
pele que escorregava naquelas pedras pegajosas. Uma única janela
fazia entrar o cheiro do mar, e ver o único bocado de céu negro que
nos era permitido ver através das grades enferrujadas, para destoar
disto tudo e me fazer voltar à realidade estava no centro do tecto
uma lâmpada acesa que não proporcionava assim tanta luz. Ouço um
gemer e olho para os meus dois companheiros de cela, antes de poder
fazer qualquer comentário apercebo-me onde estou, ao lado de um
colchão asqueroso que se encontra ao lado de uma porta maciça muito
ferrugenta apenas com uma pequena abertura com duas grades ao nível
dos joelhos; além da ferrugem, havia sangue e muitos arranhões
especialmente na metade inferior.
Mais uma vez tento levantar-me.
Levantou-se! Decerto pensa que não passa tudo de um sonho, como é
possível alguém ver esta decadência que se exibe perante os seus
olhos? Como é possível isto estar a acontecer pensará ele?
Certamente quer umas asas para sair daqui a voar, tentar perceber o
que se passará, aposto que quer isso tudo, mas sem aquela dor que é
manifestada por todos os seus movimentos, num levantar de pescoço,
num forçar as pernas, num respirar que deve estar a chegar ao fim…
Já andou à luta porventura, mas nunca lhe deve ter doido como está
a doer, mal se mantém de pé…
- Então? Essa força? Está tudo bem? Vamos a uma corridinha? Ah
pois, não podemos que estamos aqui fechados, e estas algemas nem me
deixam deitar um bocado nesse chão que parece delicioso…
-Gabriel! Oh minha besta, estás parvo? Primeiro acorda-lo e agora
estás a tentar baixar ainda mais a moral do que o que está?
-Isto é tudo para o nosso bem meu amigo…
A primeira pergunta parecia não querer sair, havia tanto para
perguntar tal como – quem são vocês? Ou – o que fazermos aqui?
Ou até – o que se passa? Mas nada disso saía, acabei por
perguntar:
-Quando é que comemos?
-Uma vez por dia. – Respondeu o rapaz que se encontrava à minha
direita quase deitado no chão. Não pareceu surpreendido com a minha
pergunta; ia começar a falar outra vez quando o “amigo” disse:
-Temos que ganhar forças, não comas o que eles te deixarem aqui,
mal consigamos sair comes, mas por ora, não toques na comida.
Exercita-te como puderes, e tenta soltar-nos se assim o quiseres, mas
aviso-te desde já, sem nós não vais muito longe. Como podes ver a
porta não tem nenhuma ranhura para a comida, por isso eles tem de a
abrir para por o prato cá dentro, aí é a tua hipótese.
Olhei para ele enquanto falava, mas não associei as palavras até
ele ter acabado de falar. Pensei e pensei ainda mais. Não me podia
arriscar a sair e a ser apanhado ainda para mais sem saber o que se
passa.
-Não. – Respondi.
-Como não? – Perguntou o outro.
-Não, já disse. Não me vou arriscar a ser apanhado, pode ser que
apareça alguém para ajudar, ou até pode ser que nos soltem. Eu nem
sei o que se passa!
-O que se passa!? O que se passa é que já devias ter acordado à
mais tempo! Devias ver as coisas que acontecem por aqui! O que se
passa é que acho que andamos a comer restos de cães e que a comida
tem algum tipo de droga que nos mantém estúpidos e passivos, por
isso, acorda de uma vez por todas, acorda para a vida, para a tua
vida! Ninguém vem buscar-nos, eles de certo não nos vão soltar do
nosso novo emprego de providenciar horas e horas de diversão por
termos espasmos quando somos electrocutados, ou chorar que nem bebés
quando nos colam uma lamina de bisturi ao olho a dizer que nos vão
arrancar! Isso é o que se passa, e se achas que ainda devemos ficar
aqui então experimenta só ir com um dos próximos trogloditas que
vão aparecer nessa porta mesmo antes do jantar!
Apesar dos berros ninguém pareceu ouvir, não ouvi passos nem
ninguém a falar, por isso achei seguro responder.
-Eu não sei o que se passa… nem sei em que posso ajudar…
-Então é assim. – Recomeçou ele enquanto se mantinha a olhar
para o solo devido às correntes que o mantinham preso ao chão. –
Tentas! Fazes o que puderes, não interessa o que pensas neste
momento, o que interessa é que temos de sair daqui e condição é
confiares em nós que não mordemos. Quando um dos guardas vier um de
nós começa a insultar ou seja lá o que for preciso para ele nos
arrastar lá para fora, já que tu és o único que não está preso,
mais vale ficares e ganhares forças. Não comas o que vier a seguir,
não comas nada que não esteja preparado por ti, amanhã deves estar
mais fraco, mas não estarás todo drogado e apático como eles
querem, depois quando eles vierem buscar alguém outra vez,
aproveitamos essa abertura. Não sei bem o que fazer aí… mas…
Nesse momento ouvi-mos o que parecia um molho de chaves a chocalhar e
calamo-nos. Calamo-nos até ouvir-mos as chaves a pararem de fazer
barulho para fazer um barulho pior, o de deslizar pela fechadura e
começar a rodar.
A porta abriu-se com um gritar medonho ao mesmo tempo que se
arrastava contra o chão. Mal acaba de se abrir tenho a explicação,
o motivo pelo qual eles queriam fugir tão desesperadamente. À minha
frente surgiu um homem que mais parecia um touro, colossal, com umas
roupas que mais pareciam saídas da minha infância, mas, salpicadas
de sangue que não era dele de certeza, aparentava ser
extraordinariamente forte e sinto isso quando ele me pega pelo braço,
como se eu fosse um boneco de trapos. Ouço o tipo que está no chão
a berrar insultos e a dizer para o levar a ele.
-Lembra-te, não temas a morte, ela está do teu lado, se mostrares
medo ela vem direita a ti, mas se te mostrares indiferente ou
desprendido, ela passa por ti e nem te vê!
-O quê? – Pergunto à medida que sou arrastado. - Cala-te e
ajuda-me! Tira-me daqui! – Entro em pânico e tento espernear para
me soltar, começo a perder os sentidos, e ao mesmo tempo vou
ouvindo:
-Não comas quando acordares! Não comas…
Caiu que nem um pássaro sem asas. Arrastaram o Mike daqui para fora
e tudo parece piorar, nem imagino como vamos passar por aquele
estupor.
Ouço berros ao longe, cada um custa-me tanto como se estivesse lá,
ouço barulhos estranho e este gajo não acorda nem por nada… Só
me resta esperar…
Acordo com um barulho metalizado de um prato a cair ao lado da minha
cabeça e a salpicar-me a cara com um molho pegajoso e mal cheiroso.
Sinto alguém a passar por cima de mim e ouço a porta a fechar-se
com um estouro. Levanto-me, vejo o tipo que estava a berrar-me a
cambalear, e a sentar-se devagar no chão, estava com a boca
anormalmente inchada e a sangrar.
-Desculpa não ter concordado logo… Não sabia que isto era assim.
Eu quero sair daqui tanto quanto vocês, o que tenho de fazer?
Sinto-me numa reunião dos presos anónimos em lugares
inconcebivelmente estúpidos.
A resposta demorou a chegar, mas depois dum grunhido ele lá acabou
por falar com dificuldade e disse:
- Como já deves ter percebido pelo insulto, ali o esticadinho é o
Gabriel, eu chamo-me Miguel mas todos me chamam Mike. Bem-vindo à
realidade; agora só nos resta sentar aqui, esperar e desesperar, era
bom que conseguíssemos soltar ali o meu amigo.
Ele está bem preso por umas algemas gigantes que torneavam o seu
corpo com umas correntes da mesma dimensão, algemas essas que
pareciam só abrir com uma chave de uma forma triangular. Tentamos de
tudo o que dispúnhamos, pedras pequenas para tentar partir à força
a corrente, as molas do colchão para tentar abrir a fechadura. –
Parece tão fácil nos filmes… – Lamentei com uma profunda
decepção na voz.
Ao fim de uma hora nada tínhamos evoluído, ainda pensamos em cortar
o polegar, mas isso seria dramático demais por isso a única solução
plausível seria tirar as chaves ao guarda, e em ultimo caso, se ele
assim o quisesse, tomaríamos então medidas drásticas.
-Tentem descansar para amanhã estar tudo em forma dentro dos
possíveis, eu já me habituei a estar aqui, por isso, mais vale
vocês aproveitarem para ganhar forças.
Concordei, e fui pegar no prato para despejar a comida debaixo do
colchão, caso viessem espreitar. Deitei-me a pensar como iríamos
derrubar aquele monstro que nos iria aparecer amanhã, não tinha
ideia nenhuma, mas algo haveria de surgir, era isso ou a possível
morte, mas não havia qualquer duvida que algo tinha que acontecer,
algo que nos mudaria para sempre, ou nos desproveria do acto de
viver.
Antes de adormecer, ouço o que aparenta ser risos com berros de
euforia.
Adormeceu, se calhar é melhor fazermos o mesmo…
-Olha lá. – Sussurrei com uma voz amarga, talvez por tudo o que
sofremos. - Vê se amanhã o consegues fazer soltar-me que se não
for ele isto ainda dá para o torto, nenhum de nós se safa, sabes
bem que vocês os dois não vão longe sem mim.
-Eu sei, eu sei… o pior disto tudo, não é aquele móvel andante
ou o que vamos ter de fazer para sair daqui, mas sim porque raio é
que ele não nos reconheceu…
Manhã… ou assim aparenta, pelo menos é cedo, bastante cedo.
Levanto-me e tento esticar os músculos, apesar das dores, tenho que
ser capaz de me mexer. O dia nem parece mau, vejo um pouco de sol e
vejo que eles os dois dormem. Aproximo-me do Gabriel para ver melhor
as algemas, agora com esta luz pode ser que veja algo que me tenha
escapado antes. Não percebo como é que ele pode dormir em pé, já
deve estar aqui há algum tempo… Inspecciono outra vez as algemas,
mas nada de novo, apenas posso ver que o triangulo que tinha visto,
na realidade é um prisma que se deve inserir para abrir, o que eu
acho muito estranho, visto que estamos numa cela que mais parece
parte duma catacumba. Ouço o Mike a espreguiçar-se e a levantar-se
para vir ao meu encontro.
-Então David? Preparado para enfrentar o teu Golias?
Olho para ele com um ar surpreso e pergunto – Como é que sabes o
meu nome?
-Não sei, só te chamei David porque aquele tipo parece-me mesmo um
Golias ou Adamastor, espero que não te chames Camões também… ou
Vasco… – Completa ele enquanto dá um bocejo quase de deslocar o
maxilar.
Suspiro e tento desconversar. – Parece que já estás melhor da
boca, já não está tão inchada. Acho que a noite nos ajudou.
-Pois, mas infelizmente é só por agora, ainda temos de escapar
deste maldito lugar para eu me sentir verdadeiramente melhor.
-E havemos de o conseguir, só temos que arranjar algo para
atacarmos… o Golias.
Procurei por tudo quanto era canto e não encontrei nada
verdadeiramente útil, umas pedras mas nada que fosse suficiente para
magoar o nosso adversário, até que me lembrei do prato, era um
prato simples mas feito de metal, se eu conseguisse dobra-lo o
suficiente, talvez o conseguisse partir para fazer uma aresta
suficientemente afiada para ameaçar… ou ferir. Ponho o prato num
canto entre o chão e a parede, tiro a minha t-shirt e ponho-a por
cima do prato, não que adiante muito, mas deve abafar pelo menos um
pouco do barulho. Após muitos pontapés, e dedos magoados por tentar
dobrar o metal consigo finalmente obter o resultado desejado. Tenho
as mãos cheias de suor e restos de comida, mas também, olhando para
o contexto, nem me importo muito. Entretanto o Gabriel acorda e
pergunta se já chegamos a casa. Não percebi bem a pergunta, se
estava a tentar ter piada ou se começa a alucinar por causa de tudo.
Ouço um assobiar a passar pela porta e fico quieto, sinto-me todo a
tremer e a suar. Para meu azar o Gabriel começa outra vez a falar.
-Então? Estás com medo do lobo mau? Não podes reagir assim, tens
que ser forte meu amigo, ergue a cabeça e punho e prepara-te para o
pior!
-Eu não sou teu amigo, estou a ajudar porque três são sempre
melhor que um para descobrir o que se passa, estou a fazer o esforço
de me mandar contra aquele tipo porque o Mike sacrificou-se por mim e
eu não vou deixar agora as coisas assim sem mais nem menos, mudam-se
os tempo mudam-se as vontades, tanto quanto sei, podes estar ai preso
por seres um sociopata psicótico, mas não é por isso que vais
ficar ai, pois nem que eu tivesse que libertar o próprio Gengis Khan
para sair daqui. Faço-o porque seja lá o que se passa lá fora,
nenhum de nós o está a merecer, e por isso não me venhas dizer
para ter calma e me armar em forte, eu sei o que tenho que fazer no
devido tempo.
-Assim espero – Foi a resposta sonante do meu ouvinte.
Parei de olhar para ele após um momento desconfortável e fui mexer
os músculos mais uma vez. Andei dum lado para o outro, saltei e fiz
flexões, após um período de descanso, voltei a fazer o mesmo.
Entretanto o Mike não saia da beira da geringonça que prendia o
amigo.
Ele está a aprender, já podemos dizer que temos uma oportunidade de
nos safarmos, mas entretanto ele aprende com os músculos mas não
com o cérebro.
-Mike achas que nos safamos desta?
-Não sei, mas se nos safarmos bem que começo a concordar contigo
mais vezes… Vir para aqui foi má ideia.
-Obrigado, mas não achas que então erramos ao fazer o que fizemos?
-Oh, sabes bem que não, estava destinado, será o karma?
-Eu acho que é a loucura, as pessoas acham sempre que deveriam ser
diferentes do que o que são, agir de forma diferente, mas se todos o
fizéssemos, não passaríamos de personagens de filmes em que tudo
corre bem e a vida vai sempre pelo melhor lado. Por isso somos
criados para apaziguar essa ideia e formar ideias novas. Por isso
talvez seria melhor darmos o benefício da dúvida á loucura. Será
que podemos confundir o ser senil com o ser demasiado lúcido? E se
chegamos a um tal estado de lucidez em que tudo o que aparente ser
anormal para os outros é normalíssimo para nós? E se tudo o que
vemos não passa da nossa imaginação?
Paro de me esticar e viro-me para eles.
-Vocês estão a falar de quê?
-Eu acho que é a loucura a falar, não lhe ligues. – Disse o Mike.
-Pois, eu não me meto nos vossos assuntos, já percebi. - Sorrio com
um ar sarcástico. – Afinal, nem sei porque estamos aqui, mas mais
vale continuarmos assim, ou ainda temos surpresas desagradáveis. –
Ao acabar reparo que já está noite, a transição entre
claro-escuro nem foi notada, pois a luz teve acesa o tempo todo com
aquele zumbido irritante. Ouço passos já fora. Sinto-me confiante
ao pegar na minha arma mal feita e a vestir a minha t-shirt de novo,
apesar de estar toda molhada por ter estado no chão.
Ouço as chaves. Aquele barulho que só ouvi uma vez arrepia-me tipo
cão de pavlov, sinto-me a fraquejar, mas não devo, não posso! Ouço
o mesmo esquema da noite passada, as chaves a chegarem à porta, o
silêncio enquanto se encontram com o seu destino, o começar a
escorrer pela fechadura e finalmente o baque de destrancar, a mesma
chiadeira infernal de ontem.
Chego-me para trás e apercebo-me de que o meu Golias não é um
Golias, mas sim o irmão mais velho dele, maior do que eu me lembrava
mas tenho um plano, corro para ele com o meu meio prato nas duas
mãos, tento atingir uma parte qualquer da barriga. Começo a tremer
e atiro-me de cabeça, mãos para a frente e ele nem se mexe, meio
metro e estou lá, sinto a lamina a rasgar a roupa e logo a seguir a
carne ele nem sinal de vida dá.
Afasto-me com o prato nas mãos e vejo que ele continua a olhar para
mim, olho para o prato e nem pinga de sangue. Ele ri-se, ri-se como
se tivesse visto a coisa mais engraçada do mundo. À medida que fico
incrédulo a olhar, não reparo que ele já levantou um braço e o
dirige a mim, sinto uma forte mão a esmagar a minha carne contra os
ossos. Caio para o lado, bato na parede e olho para trás, o Mike
ainda está a tentar solta-lo! Berro – Ajuda-me! - O Golias olha
para eles e depois para mim, volta a olhar para eles e fica parado um
pouco, é a minha oportunidade, ele pode ser feito de carne e
músculos, mas de certeza que ele é humano. Atiro-me para as pernas
deles e corto-lhe um tendão, parece que estava a cortar uma corda
puxada por dois bois para lados opostos, ele cai e fica de joelhos.
Só tenho tempo de os ouvir berrar.
-Mata-o agora! - Berra o Gabriel
-Não! Ajuda-me aqui e vamos embora, por favor! - Suplica o Miguel.
Sinto-o a mexer-se, instintivamente levanto-me e dirijo o meu pé
para a cabeça dele com o máximo de força possível, atinjo-o
várias vezes. Abuso da pena, mas não tenho pena. Ele cai prostrado.
Vejo um fio de sangue a deslizar por uma orelha. Será que morreu?
Sinto um ardor a descer-me pela garganta, penosamente, a bater bem
fundo na barriga provocando-me azia.
Olho para trás e o Gabriel está solto! – Como é que
conseguiram?! – Pergunto eu exaltado.
-Isto já devia estar meio aberto com as pancadas que demos, acho que
agora com o pânico conseguimos forçar. Mas isso não interessa,
vamos sair daqui?
Avanço para a porta, olho lá para fora e vejo um corredor todo
metalizado, não tem nada a ver com a cela onde me encontrava,
aparenta ser um corredor de um submarino ou algo parecido, paredes
pintadas de um laranja queimado com várias portas para ambos os
lados numerada com grandes números vermelhos.
-Esquerda ou direita? – Pergunto
-Esquerda, quando fui levado na noite passada fui para a direita, e
acredita, tu não queres ver o que há do lado direito.
Começo a correr para o corredor da esquerda quando ouço algo vindo
da cela onde nos encontrávamos. – Vamos depressa, não parece que
tenhamos muito tempo!
Após duas ou três portas, vejo uma entreaberta e espreito
rapidamente, para ver uma sala que aparentava ser uma sala normal,
não fosse o facto de estar toda queimada, com uma secretária ao
centro e o que me parecia um boneco queimado sentado na cadeira em
frente à mesma. Senti um calor a inundar-me os olhos e comecei a
lacrimejar, continuei a correr, mas a meio do caminho apercebi-me que
o que tinha visto não era um boneco, mas sim uma pessoa, quem é que
no seu perfeito juízo ficaria numa sala a arder à espera de morrer?
Será que ando a ver coisas? Isto é tudo muito estranho.
Corremos sempre em frente, não olhando para as portas que nos
apresentam os tais números vermelhos, até que eles param em frente
a uma porta. Numero 19. – Que se passa? - Perguntei.
-Aqui! Estaremos seguros aqui por um bom bocado. – Respondem os
dois em uníssono, o que me provocou um estremecer de pernas; não
que fosse um mau presságio ou algo do género, mas porque é que
ambos pararam exactamente ali? Apesar de achar tudo muito estranho,
decidi confiar neles e dirigi-me à porta.
Rodei a maçaneta e entrei.
Era uma pequena sala, tinha um vídeo e uma televisão num canto, um
caixote ao lado e um sofá de três lugares em frente, que ocupava
quase a parede lateral inteira, no espaço que não era ocupado pelo
sofá estava uma porta de madeira já muito envelhecida pelo tempo,
diferindo bastante da porta de onde eu tinha entrado. Abri e nada,
era apenas um cubículo escuro. Olho para a porta de onde tinha
entrado e tinha dois cadeados para trancar, não achei necessário
faze-lo pois já ia sair visto que ali não tinha nada de útil, ao
por a mão na maçaneta ouço vozes do outro lado da porta – Umas
vozes grossas e arrastadas começaram a surgir.
-Onde é que ele foi?
-Não sei, ele saiu da cela e desatou a correr!
Um punho bate na porta ao lado com força – Ele não pode ter ido
longe, temos as duas saídas vigiadas! Procurem nas salas todas,
vocês comecem na primeira, eu vou para a última, nunca abandonem
este corredor por motivo algum, ele está algures aqui e nós vamos
encontra-lo! - Ouço um estalido conhecido, uma arma a ser
engatilhada e pronta a disparar.
-Bem, agora é que a fizemos bonita, fechamo-nos aqui e nem
conseguimos sair, devíamos ter tentado ir em frente. – Sussurro
com medo que nos ouçam.
-Se fossemos em frente já tínhamos sido apanhados, de onde é que
achas que aqueles vieram? – Sem se preocupar com o tom de voz
respondeu o Gabriel.
-Não sei, mas aqui também não temos muita escolha a não ser estar
à espera da morte certa! – Fechei os cadeados assim que me
apercebi que eles já estavam longe e virei-me de costas para a porta
a olhar para eles os dois. Ainda estavam nus, mas não se preocupavam
muito com isso, umas novas cicatrizes tinha surgido nos pulsos deles,
apesar de poucas, o Miguel também tinha as suas, bem marcadas. –
Não sei o que fazer agora, por isso vou descansar, isto dever ter
mais de quarenta portas, e até chegarem à dezanove ainda demora,
por isso… ia-me a dirigir para o sofá quando reparo com maior
atenção no caixote, ainda penso em ir lá abrir e ver o que tem,
mas por tudo o que já vi por aqui não me parece boa ideia. Encosto
a cabeça ao braço do sofá e fico a olhar para a televisão a
pensar que raio de vida era aquela. Será que estou num hospício e
tudo isto é um sonho ou uma alucinação? E se for mais do que isso?
E se realmente eu estou num lugar assim tão irreal? O que se passa?
Quem são estes dois meus companheiros? Quem é que me prendeu aqui e
porquê? Continuo a olhar para a televisão desligada, olho para o
caixote ao lado e sinto-me a adormecer a pensar na caixa de Pandora,
será que eu estou dentro dela?
Está quase a adormecer, começou a fechar os olhos… e agora aquele
movimento rápido mesmo antes de cair para um sono profundo.
-Não percebo como é que ele consegue adormecer num momentos destes!
Quer dizer… porque é que ele não viu a saída daqui? Eu sei que
há uma, quando fomos arrastados para cá eu vi que entramos
exactamente por esta sala. E saímos por aquela porta que vai lar ao
corredor.
-Mike, não tentes compreender a incompreensão, se ele não a viu é
porque algo mais se vai passar, já te disse, já desde miúdo que és
assim, um impaciente que se lança de cabeça para tudo, depois eu é
que arco com as culpas das más decisões! Estas cicatrizes provam
isso, sabes meter-te em sarilhos mas sair deles nem por isso.
-Não comeces, já discutimos isto inúmeras vezes, se ele soubesse
decidir por ele próprio não estávamos aqui a fazer nada, por isso,
sempre que é necessário intervimos não é? Olha se fosse ele a ir
para aquele quarto? Tu é que quiseres assumir uma forma física, não
sei se para lhe dar mais confiança ou para quê, mas o que sei é
que ele agora nunca vai ser o mesmo, não falo por causa do que viu
aqui, mas por nossa causa, nós nunca deveríamos ter saído da
cabeça dele para fazer isto tudo, se ainda estivéssemos lá ele
poderia ter-se desenvencilhado sozinho, e quando saísse daqui, teria
apenas um mau trauma devido ao que viu.
-Um mau trauma? Tu estás estúpido? Já estamos aqui aos dias, ele
só acordou agora para bem dele, porque se ele tivesse acordado mais
cedo, eu acredito que já tivesse louco por esta hora, tudo o que
passei, passei por ele, se tu foste para aquele quarto, não foi por
ele, mas por ti! Porque tens medo de morrer, anda a pregoar que a
morte é amiga e não sei o que mais e depois escondes-te atrás das
palavras só para não a enfrentares, se acreditasses mesmo nisso, já
tinhas enfrentado os teus medos por ele, já o tinha ajudado a sair
daqui!
-Eu tento! Não sou de ferro! Lá por tu achares que és o anjo
protector, ou a consciência boa, isso não te dá o direito de ires
por cima da razão, nós somos apenas consciências, nem boas nem
más, apenas diferentes! Temos personalidades diferentes tal como um
humano tem do outro! Ele nem tinha conhecimento nosso até agora.
Fazíamos tudo pela calada e estava muito bem, mas não, tu tinhas
logo que vir armado em cavaleiro andante, não perdias uma
oportunidade de te mostrar ao mundo.
E tu não perdeste uma oportunidade de estar calado, David, Golias?
Onde raio foste buscar isso? Se ele algum dia tiver noção de quem
somos, ai sim, ai estamos tramados! E quanto ao cavaleiro andante,
desculpa lá se me preocupo mais com ele que é quem nos mantém
vivos e nos criou inconscientemente, se for preciso tomar as decisões
por ele, tomo! Para o melhor de todos nós!
-Olha faz o que quiseres, eu já não quero saber, queres matar toda
a gente? Mata, se isso te faz feliz, até te podes tornar num
sociopata tal como ele te chamou, se achas que tens solução para
tudo, então agora toma as rédeas, mas lembra-te, tu não tens asas
para sair daqui!
-Como queiras.
Um tiro. Acordo em pânico, alguém anda aos tiros! Olhos para todos
os lados e vejo que estou sozinho, aquele barulho deixou-me quase
surdo, e assim do nada outro tiro ensurdecedor! O que se passa aqui!?
Olho para a porta e vejo que está a ficar cada vez mais esburacada,
e eles não vão parar até acertarem nos dois cadeados, de certeza,
sinto vontade de vomitar mas não o faço, estou em pânico e sozinho
e não sei o que fazer. Olho para todo o lado, desespero e tento
arrastar o sofá para a porta, mas é demasiado pesado. Arrasto a
televisão para no momento a segui levar um tiro que sai pelo ecrã,
rachando-o todo.
E agora?
E agora o que faço? Grito por ajuda, para logo a seguir ser saudado
pelos risos de hiena que vem do outro lado da porta.
E agora?
Ouço uma voz ao fundo, alguém a chamar-me. Uma voz conhecida, mas
de onde vem esta voz? Olhos para todo o lado e só vejo a porta que
não tem nada lá dentro.
Arrisco, abro a porta e surpreendentemente vejo umas escadas.
Fecho a porta atrás de mim e começo a subir lanços de três
escadas de cada vez, até chegar a uma porta de madeira e com quatro
janelinhas de vidro no topo. Abro-a.
Vejo o luar que ilumina tudo a minha volta, vejo que estou numa
espécie de prédio, este é um telhado raso por onde não há
problemas em andar, olho para um canto e lá está o Miguel e o
Gabriel a olhar para baixo.
-A sério que consigo – Diz o Gabriel.
-Duvido, vais-nos matar a todos – Replica o Miguel.
-Bem, isso agora está nas minhas mãos, lembras-te?
-De que é que vocês estão a falar? Temos que sair daqui, não
tarda nada eles estão aqui em cima!
Aproximo-me deles e vejo que estamos pelo menos num terceiro andar,
olho para baixo e vejo uns caixotões de madeira e umas cordas, a uns
trezentos metros vê-se o mar, pareceria que estamos num área de
pesca, não fosse o facto dos barcos que se vem estarem todos
encalhado e quase desfeitos, ou na água ou numas rochas que parecem
que fazem parte do próprio cais. De repente ouço mais uns barulhos
vindos de lá de baixo. E berro – Vamos arranjar uma solução para
isto?
-Aqui o Gabriel já tem uma, e das boas! - Diz o outro quase a
rir-se.
-De que é que ele está a falar? – Questiono.
Não tenho uma resposta enquanto olho lá para baixo juntamente com o
Gabriel. Ia começar a perguntar outra vez, quando ouço um grande
barulho e o que parece madeira a partir. – Eles vem ai! – Começo
a entrar em pânico, a sentir aquela dor outra vez, sinto que não
vou ter forças para suportar isto, sinto-me todo a tremer e a
transpirar, olho à minha volta em pânico, aparecem três tipos um
pouco mais pequenos do que o “Golias”, a olhar para mim com um ar
de fúria extrema. Mais uma vez, sinto-me a desmaiar, mantenho-me em
pé, mas sinto que estou a perder a consciência. Antes de tudo se
apagar só ouço o Miguel dizer:
-Sabes que não tens asas para saltar daqui até lá abaixo não
sabes?
Para ter a resposta mais real que algum dia ouvi.
-As asas são para os fracos.