sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Os Estranhos

-Porquê?
-Porque sim…
-Mas eu não quero.
-E eu estou-me pouco lixando para o que tu queres.
-…Mas temos que ser os dois a decidir, sabes que sem isso nada feito! Por isso diz-me boas razões, justas e verdadeiras.
-OK… primeiro porque ele precisa tanto como nós, segundo… -um silêncio incómodo apodera-se do ar – Porque nenhum de nós irá sobreviver…
-Deves achar que tens asas...sabes que não devíamos, que não podemos.
-Que se lixem as regras, os mandamentos, ou a lei, se tivermos que ajudar, ajudamos, se tivermos que matar… matamos! Tu, melhor do que ninguém devias não só aceitar, como ter tido a própria ideia, não sei a quem sais com esse medo irracional.
-Muito bem… Acorda-o
-Hei, tu!

Sinto um ardor nos olhos ao ouvir uma voz a entrar directamente na minha cabeça, tento mexer-me, mas todas as extensões do meu corpo berram de dor. Deitado de barriga para baixo com a cara colada ao chão tento levantar-me sem pressa. Primeiro faço força com o braço direito e levanto um ombro, depois com o esquerdo, e ergo a cabeça; algo escorre pela minha cara, algo viscoso que me passa pelas bochechas até ao canto dos lábios, instintivamente arrasto a minha língua até esse canto e sinto um sabor meio doce, um sabor conhecido… sangue misturado com suor, não me repugna, pelo contrário. Até fico aliviado por sentir outra sensação que não a dor. Ouço outra vez aquela voz.
-Hei, tu aí, força nisso.
É uma voz arranhada, quase rouca, não para de insistir para me levantar. Olho em frente à medida que levanto a cabeça e vejo-os. Dois homens todos nus que não devem ter mais de trinta anos, o da esquerda preso com as mãos acima da cabeça todo esticado, quase sem tocar com os pés no chão, o da direita, aninhado no chão com umas ferramentas estranhas a prende-lo ao próprio solo obrigando-o a uma posição desconfortável e com pouca liberdade de movimentos. Tinham uma fisionomia parecida, mas o que estava pendurado tinha cabelo comprido, de um castanho claro, olhos muito verde e várias cicatrizes no corpo todo, algumas antigas e outras que não deveriam ter mais de um mês, via-se no seu olhar confiança e vigor; o que estava quase deitado no chão tinha um aspecto simples, cabelo curto de um castanho acobreado, uns olhos penetrantes castanhos muito claros, por vezes, com o reflexo até pareciam amarelos. Ambos tinham na pele uma mistura de sangue com terra.
Olho à minha volta e vejo o que aparenta ser uma rudimentar construção de uma cela, com pedras enormes à minha volta e até o próprio chão é feito de pedra, em certas zonas tinha musgo que parecia querer rastejar pela parede toda até nos tocar e engolir, a humidade fazia os ossos gemerem de dores e fazia-se sentir pelo toque do chão que mais parecia uma entidade viva ao acompanhar a minha pele que escorregava naquelas pedras pegajosas. Uma única janela fazia entrar o cheiro do mar, e ver o único bocado de céu negro que nos era permitido ver através das grades enferrujadas, para destoar disto tudo e me fazer voltar à realidade estava no centro do tecto uma lâmpada acesa que não proporcionava assim tanta luz. Ouço um gemer e olho para os meus dois companheiros de cela, antes de poder fazer qualquer comentário apercebo-me onde estou, ao lado de um colchão asqueroso que se encontra ao lado de uma porta maciça muito ferrugenta apenas com uma pequena abertura com duas grades ao nível dos joelhos; além da ferrugem, havia sangue e muitos arranhões especialmente na metade inferior.
Mais uma vez tento levantar-me.

Levantou-se! Decerto pensa que não passa tudo de um sonho, como é possível alguém ver esta decadência que se exibe perante os seus olhos? Como é possível isto estar a acontecer pensará ele? Certamente quer umas asas para sair daqui a voar, tentar perceber o que se passará, aposto que quer isso tudo, mas sem aquela dor que é manifestada por todos os seus movimentos, num levantar de pescoço, num forçar as pernas, num respirar que deve estar a chegar ao fim… Já andou à luta porventura, mas nunca lhe deve ter doido como está a doer, mal se mantém de pé…
- Então? Essa força? Está tudo bem? Vamos a uma corridinha? Ah pois, não podemos que estamos aqui fechados, e estas algemas nem me deixam deitar um bocado nesse chão que parece delicioso…
-Gabriel! Oh minha besta, estás parvo? Primeiro acorda-lo e agora estás a tentar baixar ainda mais a moral do que o que está?
-Isto é tudo para o nosso bem meu amigo…

A primeira pergunta parecia não querer sair, havia tanto para perguntar tal como – quem são vocês? Ou – o que fazermos aqui? Ou até – o que se passa? Mas nada disso saía, acabei por perguntar:
-Quando é que comemos?
-Uma vez por dia. – Respondeu o rapaz que se encontrava à minha direita quase deitado no chão. Não pareceu surpreendido com a minha pergunta; ia começar a falar outra vez quando o “amigo” disse:
-Temos que ganhar forças, não comas o que eles te deixarem aqui, mal consigamos sair comes, mas por ora, não toques na comida. Exercita-te como puderes, e tenta soltar-nos se assim o quiseres, mas aviso-te desde já, sem nós não vais muito longe. Como podes ver a porta não tem nenhuma ranhura para a comida, por isso eles tem de a abrir para por o prato cá dentro, aí é a tua hipótese.
Olhei para ele enquanto falava, mas não associei as palavras até ele ter acabado de falar. Pensei e pensei ainda mais. Não me podia arriscar a sair e a ser apanhado ainda para mais sem saber o que se passa.
-Não. – Respondi.
-Como não? – Perguntou o outro.
-Não, já disse. Não me vou arriscar a ser apanhado, pode ser que apareça alguém para ajudar, ou até pode ser que nos soltem. Eu nem sei o que se passa!
-O que se passa!? O que se passa é que já devias ter acordado à mais tempo! Devias ver as coisas que acontecem por aqui! O que se passa é que acho que andamos a comer restos de cães e que a comida tem algum tipo de droga que nos mantém estúpidos e passivos, por isso, acorda de uma vez por todas, acorda para a vida, para a tua vida! Ninguém vem buscar-nos, eles de certo não nos vão soltar do nosso novo emprego de providenciar horas e horas de diversão por termos espasmos quando somos electrocutados, ou chorar que nem bebés quando nos colam uma lamina de bisturi ao olho a dizer que nos vão arrancar! Isso é o que se passa, e se achas que ainda devemos ficar aqui então experimenta só ir com um dos próximos trogloditas que vão aparecer nessa porta mesmo antes do jantar!
Apesar dos berros ninguém pareceu ouvir, não ouvi passos nem ninguém a falar, por isso achei seguro responder.
-Eu não sei o que se passa… nem sei em que posso ajudar…
-Então é assim. – Recomeçou ele enquanto se mantinha a olhar para o solo devido às correntes que o mantinham preso ao chão. – Tentas! Fazes o que puderes, não interessa o que pensas neste momento, o que interessa é que temos de sair daqui e condição é confiares em nós que não mordemos. Quando um dos guardas vier um de nós começa a insultar ou seja lá o que for preciso para ele nos arrastar lá para fora, já que tu és o único que não está preso, mais vale ficares e ganhares forças. Não comas o que vier a seguir, não comas nada que não esteja preparado por ti, amanhã deves estar mais fraco, mas não estarás todo drogado e apático como eles querem, depois quando eles vierem buscar alguém outra vez, aproveitamos essa abertura. Não sei bem o que fazer aí… mas…
Nesse momento ouvi-mos o que parecia um molho de chaves a chocalhar e calamo-nos. Calamo-nos até ouvir-mos as chaves a pararem de fazer barulho para fazer um barulho pior, o de deslizar pela fechadura e começar a rodar.
A porta abriu-se com um gritar medonho ao mesmo tempo que se arrastava contra o chão. Mal acaba de se abrir tenho a explicação, o motivo pelo qual eles queriam fugir tão desesperadamente. À minha frente surgiu um homem que mais parecia um touro, colossal, com umas roupas que mais pareciam saídas da minha infância, mas, salpicadas de sangue que não era dele de certeza, aparentava ser extraordinariamente forte e sinto isso quando ele me pega pelo braço, como se eu fosse um boneco de trapos. Ouço o tipo que está no chão a berrar insultos e a dizer para o levar a ele.
-Lembra-te, não temas a morte, ela está do teu lado, se mostrares medo ela vem direita a ti, mas se te mostrares indiferente ou desprendido, ela passa por ti e nem te vê!
-O quê? – Pergunto à medida que sou arrastado. - Cala-te e ajuda-me! Tira-me daqui! – Entro em pânico e tento espernear para me soltar, começo a perder os sentidos, e ao mesmo tempo vou ouvindo:
-Não comas quando acordares! Não comas…

Caiu que nem um pássaro sem asas. Arrastaram o Mike daqui para fora e tudo parece piorar, nem imagino como vamos passar por aquele estupor.
Ouço berros ao longe, cada um custa-me tanto como se estivesse lá, ouço barulhos estranho e este gajo não acorda nem por nada… Só me resta esperar…

Acordo com um barulho metalizado de um prato a cair ao lado da minha cabeça e a salpicar-me a cara com um molho pegajoso e mal cheiroso. Sinto alguém a passar por cima de mim e ouço a porta a fechar-se com um estouro. Levanto-me, vejo o tipo que estava a berrar-me a cambalear, e a sentar-se devagar no chão, estava com a boca anormalmente inchada e a sangrar.
-Desculpa não ter concordado logo… Não sabia que isto era assim. Eu quero sair daqui tanto quanto vocês, o que tenho de fazer?
Sinto-me numa reunião dos presos anónimos em lugares inconcebivelmente estúpidos.
A resposta demorou a chegar, mas depois dum grunhido ele lá acabou por falar com dificuldade e disse:
- Como já deves ter percebido pelo insulto, ali o esticadinho é o Gabriel, eu chamo-me Miguel mas todos me chamam Mike. Bem-vindo à realidade; agora só nos resta sentar aqui, esperar e desesperar, era bom que conseguíssemos soltar ali o meu amigo.
Ele está bem preso por umas algemas gigantes que torneavam o seu corpo com umas correntes da mesma dimensão, algemas essas que pareciam só abrir com uma chave de uma forma triangular. Tentamos de tudo o que dispúnhamos, pedras pequenas para tentar partir à força a corrente, as molas do colchão para tentar abrir a fechadura. – Parece tão fácil nos filmes… – Lamentei com uma profunda decepção na voz.
Ao fim de uma hora nada tínhamos evoluído, ainda pensamos em cortar o polegar, mas isso seria dramático demais por isso a única solução plausível seria tirar as chaves ao guarda, e em ultimo caso, se ele assim o quisesse, tomaríamos então medidas drásticas.
-Tentem descansar para amanhã estar tudo em forma dentro dos possíveis, eu já me habituei a estar aqui, por isso, mais vale vocês aproveitarem para ganhar forças.
Concordei, e fui pegar no prato para despejar a comida debaixo do colchão, caso viessem espreitar. Deitei-me a pensar como iríamos derrubar aquele monstro que nos iria aparecer amanhã, não tinha ideia nenhuma, mas algo haveria de surgir, era isso ou a possível morte, mas não havia qualquer duvida que algo tinha que acontecer, algo que nos mudaria para sempre, ou nos desproveria do acto de viver.
Antes de adormecer, ouço o que aparenta ser risos com berros de euforia.

Adormeceu, se calhar é melhor fazermos o mesmo…
-Olha lá. – Sussurrei com uma voz amarga, talvez por tudo o que sofremos. - Vê se amanhã o consegues fazer soltar-me que se não for ele isto ainda dá para o torto, nenhum de nós se safa, sabes bem que vocês os dois não vão longe sem mim.
-Eu sei, eu sei… o pior disto tudo, não é aquele móvel andante ou o que vamos ter de fazer para sair daqui, mas sim porque raio é que ele não nos reconheceu…

Manhã… ou assim aparenta, pelo menos é cedo, bastante cedo. Levanto-me e tento esticar os músculos, apesar das dores, tenho que ser capaz de me mexer. O dia nem parece mau, vejo um pouco de sol e vejo que eles os dois dormem. Aproximo-me do Gabriel para ver melhor as algemas, agora com esta luz pode ser que veja algo que me tenha escapado antes. Não percebo como é que ele pode dormir em pé, já deve estar aqui há algum tempo… Inspecciono outra vez as algemas, mas nada de novo, apenas posso ver que o triangulo que tinha visto, na realidade é um prisma que se deve inserir para abrir, o que eu acho muito estranho, visto que estamos numa cela que mais parece parte duma catacumba. Ouço o Mike a espreguiçar-se e a levantar-se para vir ao meu encontro.
-Então David? Preparado para enfrentar o teu Golias?
Olho para ele com um ar surpreso e pergunto – Como é que sabes o meu nome?
-Não sei, só te chamei David porque aquele tipo parece-me mesmo um Golias ou Adamastor, espero que não te chames Camões também… ou Vasco… – Completa ele enquanto dá um bocejo quase de deslocar o maxilar.
Suspiro e tento desconversar. – Parece que já estás melhor da boca, já não está tão inchada. Acho que a noite nos ajudou.
-Pois, mas infelizmente é só por agora, ainda temos de escapar deste maldito lugar para eu me sentir verdadeiramente melhor.
-E havemos de o conseguir, só temos que arranjar algo para atacarmos… o Golias.
Procurei por tudo quanto era canto e não encontrei nada verdadeiramente útil, umas pedras mas nada que fosse suficiente para magoar o nosso adversário, até que me lembrei do prato, era um prato simples mas feito de metal, se eu conseguisse dobra-lo o suficiente, talvez o conseguisse partir para fazer uma aresta suficientemente afiada para ameaçar… ou ferir. Ponho o prato num canto entre o chão e a parede, tiro a minha t-shirt e ponho-a por cima do prato, não que adiante muito, mas deve abafar pelo menos um pouco do barulho. Após muitos pontapés, e dedos magoados por tentar dobrar o metal consigo finalmente obter o resultado desejado. Tenho as mãos cheias de suor e restos de comida, mas também, olhando para o contexto, nem me importo muito. Entretanto o Gabriel acorda e pergunta se já chegamos a casa. Não percebi bem a pergunta, se estava a tentar ter piada ou se começa a alucinar por causa de tudo.
Ouço um assobiar a passar pela porta e fico quieto, sinto-me todo a tremer e a suar. Para meu azar o Gabriel começa outra vez a falar.
-Então? Estás com medo do lobo mau? Não podes reagir assim, tens que ser forte meu amigo, ergue a cabeça e punho e prepara-te para o pior!
-Eu não sou teu amigo, estou a ajudar porque três são sempre melhor que um para descobrir o que se passa, estou a fazer o esforço de me mandar contra aquele tipo porque o Mike sacrificou-se por mim e eu não vou deixar agora as coisas assim sem mais nem menos, mudam-se os tempo mudam-se as vontades, tanto quanto sei, podes estar ai preso por seres um sociopata psicótico, mas não é por isso que vais ficar ai, pois nem que eu tivesse que libertar o próprio Gengis Khan para sair daqui. Faço-o porque seja lá o que se passa lá fora, nenhum de nós o está a merecer, e por isso não me venhas dizer para ter calma e me armar em forte, eu sei o que tenho que fazer no devido tempo.
-Assim espero – Foi a resposta sonante do meu ouvinte.
Parei de olhar para ele após um momento desconfortável e fui mexer os músculos mais uma vez. Andei dum lado para o outro, saltei e fiz flexões, após um período de descanso, voltei a fazer o mesmo. Entretanto o Mike não saia da beira da geringonça que prendia o amigo.

Ele está a aprender, já podemos dizer que temos uma oportunidade de nos safarmos, mas entretanto ele aprende com os músculos mas não com o cérebro.
-Mike achas que nos safamos desta?
-Não sei, mas se nos safarmos bem que começo a concordar contigo mais vezes… Vir para aqui foi má ideia.
-Obrigado, mas não achas que então erramos ao fazer o que fizemos?
-Oh, sabes bem que não, estava destinado, será o karma?
-Eu acho que é a loucura, as pessoas acham sempre que deveriam ser diferentes do que o que são, agir de forma diferente, mas se todos o fizéssemos, não passaríamos de personagens de filmes em que tudo corre bem e a vida vai sempre pelo melhor lado. Por isso somos criados para apaziguar essa ideia e formar ideias novas. Por isso talvez seria melhor darmos o benefício da dúvida á loucura. Será que podemos confundir o ser senil com o ser demasiado lúcido? E se chegamos a um tal estado de lucidez em que tudo o que aparente ser anormal para os outros é normalíssimo para nós? E se tudo o que vemos não passa da nossa imaginação?

Paro de me esticar e viro-me para eles.
-Vocês estão a falar de quê?
-Eu acho que é a loucura a falar, não lhe ligues. – Disse o Mike.
-Pois, eu não me meto nos vossos assuntos, já percebi. - Sorrio com um ar sarcástico. – Afinal, nem sei porque estamos aqui, mas mais vale continuarmos assim, ou ainda temos surpresas desagradáveis. – Ao acabar reparo que já está noite, a transição entre claro-escuro nem foi notada, pois a luz teve acesa o tempo todo com aquele zumbido irritante. Ouço passos já fora. Sinto-me confiante ao pegar na minha arma mal feita e a vestir a minha t-shirt de novo, apesar de estar toda molhada por ter estado no chão.
Ouço as chaves. Aquele barulho que só ouvi uma vez arrepia-me tipo cão de pavlov, sinto-me a fraquejar, mas não devo, não posso! Ouço o mesmo esquema da noite passada, as chaves a chegarem à porta, o silêncio enquanto se encontram com o seu destino, o começar a escorrer pela fechadura e finalmente o baque de destrancar, a mesma chiadeira infernal de ontem.
Chego-me para trás e apercebo-me de que o meu Golias não é um Golias, mas sim o irmão mais velho dele, maior do que eu me lembrava mas tenho um plano, corro para ele com o meu meio prato nas duas mãos, tento atingir uma parte qualquer da barriga. Começo a tremer e atiro-me de cabeça, mãos para a frente e ele nem se mexe, meio metro e estou lá, sinto a lamina a rasgar a roupa e logo a seguir a carne ele nem sinal de vida dá.
Afasto-me com o prato nas mãos e vejo que ele continua a olhar para mim, olho para o prato e nem pinga de sangue. Ele ri-se, ri-se como se tivesse visto a coisa mais engraçada do mundo. À medida que fico incrédulo a olhar, não reparo que ele já levantou um braço e o dirige a mim, sinto uma forte mão a esmagar a minha carne contra os ossos. Caio para o lado, bato na parede e olho para trás, o Mike ainda está a tentar solta-lo! Berro – Ajuda-me! - O Golias olha para eles e depois para mim, volta a olhar para eles e fica parado um pouco, é a minha oportunidade, ele pode ser feito de carne e músculos, mas de certeza que ele é humano. Atiro-me para as pernas deles e corto-lhe um tendão, parece que estava a cortar uma corda puxada por dois bois para lados opostos, ele cai e fica de joelhos. Só tenho tempo de os ouvir berrar.
-Mata-o agora! - Berra o Gabriel
-Não! Ajuda-me aqui e vamos embora, por favor! - Suplica o Miguel.
Sinto-o a mexer-se, instintivamente levanto-me e dirijo o meu pé para a cabeça dele com o máximo de força possível, atinjo-o várias vezes. Abuso da pena, mas não tenho pena. Ele cai prostrado. Vejo um fio de sangue a deslizar por uma orelha. Será que morreu? Sinto um ardor a descer-me pela garganta, penosamente, a bater bem fundo na barriga provocando-me azia.
Olho para trás e o Gabriel está solto! – Como é que conseguiram?! – Pergunto eu exaltado.
-Isto já devia estar meio aberto com as pancadas que demos, acho que agora com o pânico conseguimos forçar. Mas isso não interessa, vamos sair daqui?
Avanço para a porta, olho lá para fora e vejo um corredor todo metalizado, não tem nada a ver com a cela onde me encontrava, aparenta ser um corredor de um submarino ou algo parecido, paredes pintadas de um laranja queimado com várias portas para ambos os lados numerada com grandes números vermelhos.
-Esquerda ou direita? – Pergunto
-Esquerda, quando fui levado na noite passada fui para a direita, e acredita, tu não queres ver o que há do lado direito.
Começo a correr para o corredor da esquerda quando ouço algo vindo da cela onde nos encontrávamos. – Vamos depressa, não parece que tenhamos muito tempo!
Após duas ou três portas, vejo uma entreaberta e espreito rapidamente, para ver uma sala que aparentava ser uma sala normal, não fosse o facto de estar toda queimada, com uma secretária ao centro e o que me parecia um boneco queimado sentado na cadeira em frente à mesma. Senti um calor a inundar-me os olhos e comecei a lacrimejar, continuei a correr, mas a meio do caminho apercebi-me que o que tinha visto não era um boneco, mas sim uma pessoa, quem é que no seu perfeito juízo ficaria numa sala a arder à espera de morrer? Será que ando a ver coisas? Isto é tudo muito estranho.
Corremos sempre em frente, não olhando para as portas que nos apresentam os tais números vermelhos, até que eles param em frente a uma porta. Numero 19. – Que se passa? - Perguntei.
-Aqui! Estaremos seguros aqui por um bom bocado. – Respondem os dois em uníssono, o que me provocou um estremecer de pernas; não que fosse um mau presságio ou algo do género, mas porque é que ambos pararam exactamente ali? Apesar de achar tudo muito estranho, decidi confiar neles e dirigi-me à porta.
Rodei a maçaneta e entrei.
Era uma pequena sala, tinha um vídeo e uma televisão num canto, um caixote ao lado e um sofá de três lugares em frente, que ocupava quase a parede lateral inteira, no espaço que não era ocupado pelo sofá estava uma porta de madeira já muito envelhecida pelo tempo, diferindo bastante da porta de onde eu tinha entrado. Abri e nada, era apenas um cubículo escuro. Olho para a porta de onde tinha entrado e tinha dois cadeados para trancar, não achei necessário faze-lo pois já ia sair visto que ali não tinha nada de útil, ao por a mão na maçaneta ouço vozes do outro lado da porta – Umas vozes grossas e arrastadas começaram a surgir.
-Onde é que ele foi?
-Não sei, ele saiu da cela e desatou a correr!
Um punho bate na porta ao lado com força – Ele não pode ter ido longe, temos as duas saídas vigiadas! Procurem nas salas todas, vocês comecem na primeira, eu vou para a última, nunca abandonem este corredor por motivo algum, ele está algures aqui e nós vamos encontra-lo! - Ouço um estalido conhecido, uma arma a ser engatilhada e pronta a disparar.
-Bem, agora é que a fizemos bonita, fechamo-nos aqui e nem conseguimos sair, devíamos ter tentado ir em frente. – Sussurro com medo que nos ouçam.
-Se fossemos em frente já tínhamos sido apanhados, de onde é que achas que aqueles vieram? – Sem se preocupar com o tom de voz respondeu o Gabriel.
-Não sei, mas aqui também não temos muita escolha a não ser estar à espera da morte certa! – Fechei os cadeados assim que me apercebi que eles já estavam longe e virei-me de costas para a porta a olhar para eles os dois. Ainda estavam nus, mas não se preocupavam muito com isso, umas novas cicatrizes tinha surgido nos pulsos deles, apesar de poucas, o Miguel também tinha as suas, bem marcadas. – Não sei o que fazer agora, por isso vou descansar, isto dever ter mais de quarenta portas, e até chegarem à dezanove ainda demora, por isso… ia-me a dirigir para o sofá quando reparo com maior atenção no caixote, ainda penso em ir lá abrir e ver o que tem, mas por tudo o que já vi por aqui não me parece boa ideia. Encosto a cabeça ao braço do sofá e fico a olhar para a televisão a pensar que raio de vida era aquela. Será que estou num hospício e tudo isto é um sonho ou uma alucinação? E se for mais do que isso? E se realmente eu estou num lugar assim tão irreal? O que se passa? Quem são estes dois meus companheiros? Quem é que me prendeu aqui e porquê? Continuo a olhar para a televisão desligada, olho para o caixote ao lado e sinto-me a adormecer a pensar na caixa de Pandora, será que eu estou dentro dela?

Está quase a adormecer, começou a fechar os olhos… e agora aquele movimento rápido mesmo antes de cair para um sono profundo.
-Não percebo como é que ele consegue adormecer num momentos destes! Quer dizer… porque é que ele não viu a saída daqui? Eu sei que há uma, quando fomos arrastados para cá eu vi que entramos exactamente por esta sala. E saímos por aquela porta que vai lar ao corredor.
-Mike, não tentes compreender a incompreensão, se ele não a viu é porque algo mais se vai passar, já te disse, já desde miúdo que és assim, um impaciente que se lança de cabeça para tudo, depois eu é que arco com as culpas das más decisões! Estas cicatrizes provam isso, sabes meter-te em sarilhos mas sair deles nem por isso.
-Não comeces, já discutimos isto inúmeras vezes, se ele soubesse decidir por ele próprio não estávamos aqui a fazer nada, por isso, sempre que é necessário intervimos não é? Olha se fosse ele a ir para aquele quarto? Tu é que quiseres assumir uma forma física, não sei se para lhe dar mais confiança ou para quê, mas o que sei é que ele agora nunca vai ser o mesmo, não falo por causa do que viu aqui, mas por nossa causa, nós nunca deveríamos ter saído da cabeça dele para fazer isto tudo, se ainda estivéssemos lá ele poderia ter-se desenvencilhado sozinho, e quando saísse daqui, teria apenas um mau trauma devido ao que viu.
-Um mau trauma? Tu estás estúpido? Já estamos aqui aos dias, ele só acordou agora para bem dele, porque se ele tivesse acordado mais cedo, eu acredito que já tivesse louco por esta hora, tudo o que passei, passei por ele, se tu foste para aquele quarto, não foi por ele, mas por ti! Porque tens medo de morrer, anda a pregoar que a morte é amiga e não sei o que mais e depois escondes-te atrás das palavras só para não a enfrentares, se acreditasses mesmo nisso, já tinhas enfrentado os teus medos por ele, já o tinha ajudado a sair daqui!
-Eu tento! Não sou de ferro! Lá por tu achares que és o anjo protector, ou a consciência boa, isso não te dá o direito de ires por cima da razão, nós somos apenas consciências, nem boas nem más, apenas diferentes! Temos personalidades diferentes tal como um humano tem do outro! Ele nem tinha conhecimento nosso até agora. Fazíamos tudo pela calada e estava muito bem, mas não, tu tinhas logo que vir armado em cavaleiro andante, não perdias uma oportunidade de te mostrar ao mundo.
E tu não perdeste uma oportunidade de estar calado, David, Golias? Onde raio foste buscar isso? Se ele algum dia tiver noção de quem somos, ai sim, ai estamos tramados! E quanto ao cavaleiro andante, desculpa lá se me preocupo mais com ele que é quem nos mantém vivos e nos criou inconscientemente, se for preciso tomar as decisões por ele, tomo! Para o melhor de todos nós!
-Olha faz o que quiseres, eu já não quero saber, queres matar toda a gente? Mata, se isso te faz feliz, até te podes tornar num sociopata tal como ele te chamou, se achas que tens solução para tudo, então agora toma as rédeas, mas lembra-te, tu não tens asas para sair daqui!
-Como queiras.

Um tiro. Acordo em pânico, alguém anda aos tiros! Olhos para todos os lados e vejo que estou sozinho, aquele barulho deixou-me quase surdo, e assim do nada outro tiro ensurdecedor! O que se passa aqui!?
Olho para a porta e vejo que está a ficar cada vez mais esburacada, e eles não vão parar até acertarem nos dois cadeados, de certeza, sinto vontade de vomitar mas não o faço, estou em pânico e sozinho e não sei o que fazer. Olho para todo o lado, desespero e tento arrastar o sofá para a porta, mas é demasiado pesado. Arrasto a televisão para no momento a segui levar um tiro que sai pelo ecrã, rachando-o todo.
E agora?
E agora o que faço? Grito por ajuda, para logo a seguir ser saudado pelos risos de hiena que vem do outro lado da porta.
E agora?
Ouço uma voz ao fundo, alguém a chamar-me. Uma voz conhecida, mas de onde vem esta voz? Olhos para todo o lado e só vejo a porta que não tem nada lá dentro.
Arrisco, abro a porta e surpreendentemente vejo umas escadas.
Fecho a porta atrás de mim e começo a subir lanços de três escadas de cada vez, até chegar a uma porta de madeira e com quatro janelinhas de vidro no topo. Abro-a.
Vejo o luar que ilumina tudo a minha volta, vejo que estou numa espécie de prédio, este é um telhado raso por onde não há problemas em andar, olho para um canto e lá está o Miguel e o Gabriel a olhar para baixo.
-A sério que consigo – Diz o Gabriel.
-Duvido, vais-nos matar a todos – Replica o Miguel.
-Bem, isso agora está nas minhas mãos, lembras-te?
-De que é que vocês estão a falar? Temos que sair daqui, não tarda nada eles estão aqui em cima!
Aproximo-me deles e vejo que estamos pelo menos num terceiro andar, olho para baixo e vejo uns caixotões de madeira e umas cordas, a uns trezentos metros vê-se o mar, pareceria que estamos num área de pesca, não fosse o facto dos barcos que se vem estarem todos encalhado e quase desfeitos, ou na água ou numas rochas que parecem que fazem parte do próprio cais. De repente ouço mais uns barulhos vindos de lá de baixo. E berro – Vamos arranjar uma solução para isto?
-Aqui o Gabriel já tem uma, e das boas! - Diz o outro quase a rir-se.
-De que é que ele está a falar? – Questiono.
Não tenho uma resposta enquanto olho lá para baixo juntamente com o Gabriel. Ia começar a perguntar outra vez, quando ouço um grande barulho e o que parece madeira a partir. – Eles vem ai! – Começo a entrar em pânico, a sentir aquela dor outra vez, sinto que não vou ter forças para suportar isto, sinto-me todo a tremer e a transpirar, olho à minha volta em pânico, aparecem três tipos um pouco mais pequenos do que o “Golias”, a olhar para mim com um ar de fúria extrema. Mais uma vez, sinto-me a desmaiar, mantenho-me em pé, mas sinto que estou a perder a consciência. Antes de tudo se apagar só ouço o Miguel dizer:
-Sabes que não tens asas para saltar daqui até lá abaixo não sabes?
Para ter a resposta mais real que algum dia ouvi.
-As asas são para os fracos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O melhor manifesto do mundo, Utópico





Ilustração baseada no jogo indie - Home: http://homehorror.com/  





O melhor Manifesto do mundo utópico.


1º - Parem de fazer merda.
Este ponto crucial passa pelo bom senso, hoje em dia somos bombardeados constantemente por design de comunicação, de todos os tipos e géneros, publicidade, causas, advertências etc… com isto temos de ter em mente que muito do que nos rodeia não faz parte da boa comunicação, muitas pessoas fazem design com o propósito de chamar à atenção, mas não têm a consciência de fazer bom design, é como caçar uma mosca com uma bomba, temos o trabalho feito, não quer dizer que seja da melhor forma.

2º - Gostar do que fazem.
Seja a fazer design ou a trabalhar numa loja, cada vez que vejo uma pessoa que não gosta do seu emprego (e não são poucas) penso como é que aquele trabalho pode ser feito ao longo dos anos pela mesma pessoa. Esta é a diferença entre ir a uma loja como por exemplo a gamestop onde as pessoas que lá trabalham percebem de jogos e tentam explicar o melhor possível à nossa dúvida, quando vamos a uma loja grande do género worten além de andarmos 4 horas à procura de alguém, quando encontramos a pessoa que foi ali parar por não ter mais nenhuma opção de carreira, vemos o que aparenta ser uma difícil batalha entre o cérebro e a boca a tentar explicar a diferença de uma playstation e xbox, no fim acabam por se enforcar com o cabo HDMI que vem com as duas. O mesmo se aplica ao design, quando fazemos algo de que gostamos, seja trabalhar com publicidade, numa empresa apenas a fazer o estacionário ou simplesmente freelance a desenhar vectores para fazer t-shirts, a qualidade do trabalho vai reflectir a nossa disposição.

3º Afastem-se do conhecido.
A verdadeira criação vem do desconhecido; quando somos familiares com algo, torna-se mais difícil inovar e criar novos conceitos, ao invés o desconhecido abre novas portas, seja no design ou noutra forma qualquer, não devemos ter medo do que não conhecemos, isso é uma ideia retrógrada que não deixa a sociedade avançar.

4º Não criar problemas, apenas soluções.
Um dos trabalhos do designer é o de solucionar problemas, transmitir informações não antes perceptíveis ao utilizador de forma a que seja fácil a compreensão dessas mesmas informações. Hoje em dia com a facilidade em fazer design "barato" muitas vezes criam-se verdadeiros trabalhos de merda que dificultam cada vez mais o trabalho dos designers dito profissionais, como os designers tem muitas vezes que trabalhar para outros, a opinião dessas pessoas também conta e se estas se habituam a ver trabalhos medíocres que chamam à atenção mas não pelo bom sentido, torna-se difícil discutir o bom senso de um trabalho.

5º Há pessoas a ser evitadas, evitem-nas.
Seja um colega, um patrão ou simplesmente ou designer desconhecido, há pessoas que nos podem mudar, mas de uma forma má, num mundo onde temos de evoluir constantemente há pessoas que nos atrasam de forma psicológica, pode não ser de propósito ou até não acontecer com outras pessoas, mas por vezes temos relações que de certa forma limitam-nos. Ainda mais, por vezes os nossos empregadores não querem saber dos nossos valores e se estivermos em caso de necessidade monetária muitas vezes cedemos a caprichos dos outros que vão contra os nossos ideais.

6º Não cedam à pressão.
Obviamente em tudo temos de ceder um pouco, mas quando fazemos trabalhos mais vale ficar na dúvida e não ceder ao ideais dos outros, a partir do momento que comprometemos os nossos princípios deixamos de ser nós mesmos. No meu caso não quero usar design para fazer dinheiro, não vou contra os meus princípios e trabalhar para empresas que prejudiquem o ser humano ou a natureza que o rodeia. A meu ver, todas as pessoas devem ter uma ideia similar, na realidade isso nunca vai acontecer.

7º Sejam influenciados.
Uma das melhores qualidades do ser humano é o livre arbítrio, e com este, vem a consciência que nos faz tomar acções como seres humanos. Aí devemos discernir o que nos faz ser melhores humanos, sim porque há humanos maus e humanos bons, a nível do design pode não haver ditadores nem coisa do género, mas há sempre quem se aproveite dos outros, do seu nome ou até de trabalhos que não fizeram. Como designers temos que fazer por não sermos influenciado pelo que é prejudicial a outros.

8º Usar a lógica
Temos que entender que estamos a fazer trabalhos para pessoas que muitas vezes não têm as mesmas qualificações do que nós em termos de design, por isso, temos que criar um design que apela a todas as pessoas ou pelo menos ao público alvo, e com isto na nossa mente temos de criar algo que seja compreensível sem sombra de dúvida, ao mesmo tempo que tem uma imagem apelativa.

domingo, 17 de junho de 2012

As frutas sem destino

Era uma vez uma banana, não uma banana qualquer, mas uma banana com sentimentos, ela queria ser um telefone quando fosse grande e ninguém a iria impedir.
A nossa história começa numa cesta (se o leitor estiver a ler isto em voz alta por favor clarifique que é cesta e não sexta, dependendo do seu sotaque é claro). Uma cesta a caminho de uma casa, uma cesta com frutos que nunca imaginariam o seu destino.
As mãos que seguravam a cesta eram belas, suaves ao toque, dedos não muito gordos nem muito magros, perfeitos, e para finalizar as unhas, não estavam roídas e não eram demasiado compridas ou curtas, estavam limpas como o resto das mãos e à primeira vista não havia nada de errados com elas ou com o resto da pessoas a quem pertenciam.
A tragédia, o drama, o horror, estava um cereja convencida de que era o Artur Albarran.
Uma faca não muito afiada encontrava-se junto a uma laranja assassinada, cortada ao meio sem dó nem piedade, os seus fluidos escorriam pela mesa, um fio de sumo dirigia-se ao cano do balcão e começava a pingar em cima dos azulejos brancos e imaculados. Foi nojento.
O pânico instalava-se entre estes seres inanimados, a mão agarrou uma das maças com força, as suas irmãs tentavam desesperadamente gritar com o pânico, mas não conseguiam, não tinham boca.
Num movimento limpo e rápido uma peça de metal entrou pelo topo da maçã até ao fundo, ao sair trouxe consigo o centro da vitima, uma mistura de polpa, caroço e alma; uma visão apocalíptica de polpa a escorrer pela lâmina circular, foi ainda mais nojento.
As restante frutas estavam em puro terror, ninguém sabia que ia ser a próxima.

A carta

“Hoje foi mais um dia, um dia sem esperança um dia sem futuro, um futuro sem esperança. Tudo começa e acaba na nossa maneira de viver, ou de pensar que vivemos, somos iludidos pela falsa realidade que se apodera de nós, acreditamos no que não é, e duvidamos da verdade, consigo ver pela cara dos meus colegas o quanto a vida pesa, eles, mais do que ninguém o sabem, e sabem do que são privados ao estarem aqui comigo ou eu ao estar com eles. Por causa de um ou de outro, prefiro ficar fechado no meu quarto e não sair para o mundo, prefiro viver no meu pequeno mundo e chorar, chorar até me doerem os olhos, penso em tudo o que me trouxe aqui e no que eu podia mudar, mas nada disso me consola, pois por muitas recordações que tenha nenhuma me vai fazer voltar ao passado e mudar tudo o que aconteceu; mudar o destino, essa seria uma boa oportunidade de remediar, mas o que não tem remédio, remediado está, e por isso não me adianta choramingar o como poderia ter sido, mas sim o que vai ser. Por isso, hoje tomo esta decisão, vou ter medo, vou ser tímido e ensimesmado mas, não me vou arrepender, arrependo-me das más decisões, não das decisões pelas quais não caminhei. Mas… mas continua, continua este sentimento de vazio, esta vontade de… nada… uma vontade irrisória de explodir e implodir ao mesmo tempo, uma vontade de espalhar todo e qualquer átomo do meu ser pelo mundo, poder viver, ou melhor, poder contemplar a vida, não ter decisões a tomar, não ter acções a causar, no fundo, não existir!
Como pode ser isto? Estou assim num patamar tão abaixo de cão que nem uma atitude tomo? Porquê? Nem eu sei, quero saber mas não descubro! Vasculhei toda a minha mente numa tal fúria e mesmo assim, nada, nem ponta por onde se lhe pegue! Quero agir, quero parar de sofrer, quero ser reconhecido e não enfrentado com dúvidas, não consigo aguentar tal desconforto, não consigo viver comigo mesmo ao saber que nada vai mudar! Acordo numa agonia que não suporto, penso sempre o que poderá ser hoje, que mal poderá acontecer ou que bem não aconteceu, penso, o que posso fazer, o que pode ser a decisão certa que vai mudar o rumo da minha vida, talvez até decidir se vivo ou se morro.
Infelizmente esta sensação é mais frequente do que eu queria, para dizer a verdade, já não me lembro de não a sentir, mas sinto que morri, já não tenho forças, não tenho forças para lutar, para viver, para caminhar…
Tudo começa com um sabor metálico na boca, depois sentimos a cabeça a ser comprimida e a cair como se fosse empurrada por uma força superior; deitamo-nos e pensamos: - “E agora? O que se está a passar? Porque estou eu assim?” Começamos a pensar o que nos tornou assim, qual o momento exacto, ou quais, e apercebemo-nos de que foi a vida, a vida madrasta pela qual seguimos e fomos guiados, nós não somos medíocres mas fomos esgotados pelas más influências ou vibrações por assim dizer, a própria vida pediu-nos mais do que nós pudemos dar, fomos pisados até ao último calo e mesmo assim continuamos a viver, mas não a viver. Desanimamos, desanimamo-nos mesmo, ficamos deprimidos, encontramos fantasmas e não sabemos como livrarmo-nos deles…
Sinto-me materialista, muito, talvez excessivamente, sempre soube que o fui, mas mesmo agora estou a senti-lo e não o consigo refutar, apetece-me apartar tudo o que tenho, seja como forma de caridade ou simplesmente mais lixo para o mundo, só quero um colchão, folhas e uma caneta, apetece-me não fazer nada, ou fazer, escrever, escrever sem parar, escrever sempre as mesmas palavras e ficar num ciclo repetitivo, infinito talvez, sempre a dizer o mesmo…
Vontade de nada… vontade de tomar uma atitude com duas pedras de gelo, talvez um shot de disposição, voltar a criar, voltar a querer viver; mas é impossível! Ou talvez não, vou enfrentar a vida, fazer frente ao maior espécime que me aparecer ai à porta; seja ele a própria morte ou um colega a cravar um cigarro. É uma escolha de palavras estranha mas amanhã vou viver, vou-me levantar e sair para o mundo. Ou talvez não… quem sabe? Eu não sei de certeza mas por uma vez, uma última vez, vou-me erguer e fazer-me conhecer, berrar aos quatro cantos da terra quem eu sou! Impor-me e expor-me! Estou farto de tudo e de todos, berrem comigo! Só por berrar! Libertar toda esta tensão que nos amassa, que nos rodeia e que nos comprime e nos torna pequenos! Acabei, não consigo escrever mais, tenho que apagar a luz antes que a apaguem por mim. Continuarei amanhã, quem sabe.”









Este é um excerto de um texto redigido pelo doente nº 960634-1337 e que deverá ser entregue á respectiva família juntamente com todos os pertences do mesmo e um pesar de toda a direcção desta instalação.

Vida versus Realidade


Por vezes esqueço-me de viver; de tal forma que o que me resta são escapadelas ao meu mundo privado. “Escrever é esquecer”, maior mentira do que essa não pode haver, escrever é deixar marca, é dar vida, é criar, é lembrar, é... tudo um pouco; escrever é a vida depois da vida. É o fôlego que faltava dar após a morte onde serei relembrado apenas por umas folhas com umas impressões que um dia fizeram sentido para alguém ou apenas para mim mesmo; posso afastar-me de tudo e soltar o deus que há em mim, posso pôr todos os problemas de parte, ignorar a minha vida que aos olhos dos outros é real e voltar a viver. Voltar a viver dentro de mim, dentro do meu portátil e das minhas teclas, dos circuitos que interligam tudo até ao monitor e fazem “isto”, aparecer estas letras que dão asas à minha imaginação e me fazem esquecer o “verdadeiro” mundo. Afinal “Escrever é esquecer”... Esqueço-me da realidade. Só me lembro quando me batem à porta a avisar que tenho contas para pagar e que nenhum livro, poema, ou o que quer que eu tenha escrito foi vendido.
Este é o meu mundo privado.

Comment te dire?


Nem tudo é o que parece, passei tantas vezes por ti e nunca reparaste em mim.
Sinto algo diferente, não é uma simples atracção é uma obsessão doentia, um desejo por alguém que nunca senti e não acho isto normal, mas agora que o sinto, entendo que hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
 Também já tive a minha dose dessa coisa a que erroneamente chamam de amor, ou porque foi um arranjinho e não queria perder tempo à procura de outra pessoa ou porque morávamos perto e era mais cómodo, no final nunca acabava bem, eu sabia que faltava mais qualquer coisa, só não sabia que era este sofrimento todo, esta timidez irrisória que nunca me atacou de tal forma, este medo de ser rejeitado, este medo que pode ser chamado de infundado pois nem nos conhecemos.
E agora entendo, parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. O amor não é para ser uma ajudinha à nossa vida, um ombro onde podemos chorar ou nos apoiar quando necessitamos, o amor é para sofrer, para esconder e não o tirar cá para fora. O amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo de apanhar um bocadinho de inferno aberto, o amor é o verdadeiro inferno que nos arde por dentro e nos consume até ao ultimo folgo, não acho que o amor é um estado de quem sente, mas sim algo que nunca deveria ser acordado das nossas profundezas mais obscuras. Talvez por isso isso existam as musas, sim, tu podes ser chamada de musa pois não passarás disso certamente, alguém de onde tiro todas as minhas criações e que nunca irá ser tocada.
Olho para ti quando tenho essa sorte e penso, que o amor puro não é um meio, não é um fim, não é um principio, não é um destino, mas simplesmente o é; é um todo que quando acordado nos hipnotiza em cada hora da nossa vida, já ouvi dizer que a vida às vezes mata o amor, para mim é o contrário, o amor é que nos mata a vida, não temos força para nada ou temos força para tudo; na minha opinião é que independentemente da situação isto se resume ao amor, ficamos moles, desensabidos, sem vontade de fazer nada a não ser morrer pelos cantos, morrer por não trocar uma simples palavra contigo, nem digo uma conversa ou uma frase completa, bastava um simples “olá” para me dar toda a força do mundo, para atravessar paredes, saltar sobre as estrelas e aterrar com um grande estrondo provocando uma cratera que se assemelharia à queda de um meteorito, e aí sim teria sentido a verdadeira felicidade, teria um sorriso estúpido que duraria semanas, isto só por um simples “olá”, nem precisava de o ouvir, bastava ler os teus lábios de onde aparecia a letra “ó”, a tua língua encaixava entre os dentes de cima com os de baixo criando assim o “éle” e acabava num sonoro “à” que não seria ouvido, enquanto os teus olhos azuis quem pareciam emanar uma vida completa olhavam rapidamente para os meus sem a menor ideia da revolução que me vai aqui dentro, e te afastavas sem conseguires ver a minha cara de atónito e que mal conseguia responder de volta, balbuciando qualquer coisa incompreensível. Mas não. Ainda não tive essa sorte, essa força, essa palavra; por isso, sinto que entre nós os dois o amor fechou a loja e não que saber da conclusão a que poderia chegar se algum dia eu tivesse a coragem de ir falar contigo.
Cada dia que passa sinto-me a afastar, a pensar que isto tudo não passaria de algo inimaginável aos teus olhos tão irreais, mas nos segundos em que te vejo diariamente tudo isso dissipa-se no ar; o ar que nos envolve, apesar de tão afastados sinto o teu ar à minha volta como que a dançar e a fazer pouco de mim por ser apenas essa a única forma de estar perto de ti. 
Sim, consigo ver o teu sorriso de vez em quando, às vezes estou parado num banco e noto que estás prestes a entrar no café, e vejo-te a rondar a zona com o teu olhar assassino de um azul estridente que conseguia engolir exércitos, olhas de relance para mim e de vez em quando sai um sorriso. Só esse sorriso vale por mil palavras que aqui possam ser escritas, só esse sorriso acabaria com a fome e guerras do mundo.
Por vezes vejo-te a andar, não, a andar não, a deslizar, a planar. Vejo-te como nunca vi ninguém, observo todos os movimentos e gestos, as ondas da tua roupa que vão vibrando com o vento ou apenas por tu as estares a usar, vejo a tua mão a passar pelos cabelo, soltando-os mais um pouco como que a provar que consegues ser mais bela do que aparentas, apesar de isso ser impossível aos meus olhos secos de não pestanejar, para não perder um milésimo de segundo de ti.
Poderia morrer amanhã que morria feliz por te ter sentido, por teres tamanho impacto na minha vida apesar de nunca termos falado, morria feliz pois duvido que haja hipótese de algum dia me sentir tão feliz como me sinto quando te vejo. Estilhaçaste a minha alma ao apareceres pela primeira vez à minha frente, e desde aí que sinto-me completamente distante deste mundo; as nossas estradas cruzam-se mas nós mantemo-nos à distancia e odeio-te com todo o meu coração, mas acho que te amo...
Sei que nunca vais ler esta carta, e se a lesses provavelmente a acharias ridícula ou algo do género, muito lamechas talvez; mas soube bem escrever, soube bem pensar nas coisas e escrever sobre elas pois daqui a uns tempos quando já não tiver oportunidade de te ver, vou saber como me senti uma única vez na vida, a ser atacado por ti, e pelo amor que está presente algures.

A manhã


Meia garrafa de Wiskey depois começava a contemplar o suicídio, este pensamento só me atravessou a cabeça na manhã seguinte, juntamente com as dores da ressaca de tudo o que tinha atravessado o meu fígado na noite anterior.

O telefone tocou. Era uma dor escondida desde o inicio até ao fim de cada toque. Uma voz de mulher estava do outro lado, não percebi o que queria, grunhi um pouco como resposta e logo a seguir atravessou a linha um berro que me fez dar a resposta: - Vai-te foder! 
Teria sido muito mais dramático se tivesse desligado o telefone com um pousar estrondoso, mas com estas novas tecnologias acabei por carregar num botão que nem era um botão a sério. 

O mundo girava e eu continuava parado.